Evaporou

f1-121
Podia ter sido perfeito. Estou em crer que podia ter sido. Podia ter sido perfeito, se existisses. Pois se calhar foste uma mera aparição. Uma alucinação que me embeveceu, de tão perfeita. Ou, se calhar, exististe mesmo, e fui eu que me deixei esquecer. Fui eu que me abandonei de tudo. O mais certo é, ainda talvez, ter sido tão perfeito que se tornou insuportável. Insuportável, para ambos, de tão perfeito.

Guardei-te tempo demais. Guardei-me, também, tempo demais. Tanto tempo, que me perdi do tempo. Que me cansei do tempo que falta. Que me esqueci. Um esquecimento branco, que tudo levou com a tua passagem.

Cansei-me e já nada espero. Já nada desejo. Nada. Ninguém. Nem mesmo a dádiva sublime da surpresa. Deixo-as morrer como peixes sem água, numa planície seca e gretada. Desprovido de forças para as fazer crescer. Para as alimentar e fazer crescer. Desprovido de vontade para acarinhar suas frágeis formas de vida.

Quem me quiser que me descubra. Que se esforce. Agora, talvez, nem já consiga. Já seja tarde. Agora que a tudo reneguei. Tudo e todos condenados à partida. Tudo a passar. Nada a ficar. Apenas as paredes cobertas de livros e esta garrafa de gin. Tudo o resto evaporou, algures no tempo.

Autoria de Dry-Martini

1 Comentário

Filed under Polaroids cruzadas

One response to “Evaporou

  1. devagarinho

    [durantes uns segundos pensei que já tinha escrito, pensado e sentido isto. e foi estranho. muito.]

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