Monthly Archives: Novembro 2008

Noite despida

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As lanternas dissipando uma luz de velas. Oscilando, em sons de metal antigo, por entre a leveza da brisa inconstante. Sem padrão. Imprecisa. Acenando à lua cheia, prisioneira de todos os olhares.

A noite calada. Cúmplice. Numa tranquilidade atenta. Parada, como uma fotografia, nítida de algo ainda não revelado mas que se sentia próximo. A noite despida de tudo. Despida para si.

No velho varandim de madeira, sentara-se na cadeira de baloiço, acompanhada apenas de um maço de cigarros, quase vazio, e uma garrafa de gin. Acompanhada simplesmente pelo movimento das mãos. Inspirando e libertando o fumo. Bebendo e pousando o copo. Num processo quase automático, como se não fosse seu, tão presa que estava naquele outro mundo.

Observavam-se mutuamente. Esperando algo inevitável. Num silêncio perverso. Como que à espera de um primeiro sinal, sabido certo. Quem cederia? Quem daria o primeiro passo?

O seu corpo partido em pedaços dispersos, unidos apenas pela manta escocesa, apertada com força. Segurando-lhe a alma aos ossos. Pronta a partir ao menor descuido. A paisagem esvaziada por aquele magnético crescendo. Aumentando a pulsação. Puxando-lhe o olhar. Abrindo uma espécie de pista assinalada pelas estrelas alinhadas. Unindo os seus caminhos.

Foi nesse momento que a noite lhe sussurrou ao ouvido, num breve toque mais frio, contornando-lhe o rosto e descendo, até à sua mão.

– Porque é que me amas tanto? Perguntou.

Deixou cair o cigarro instintivamente e respondeu como se sempre soubesse a resposta, no mais sobrenatural levantar de pássaros:

– Porque não precisas de mim. E só a mim cais desta forma para me levares nas tuas asas.

 Clara del Valle, 40 anos, Edimburgo, 3h15 AM | Autoria de Dry-Martini

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O interior dos espelhos

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Gosto de espelhos venezianos e dos reflexos da tua dança que neles passou a habitar. Uma flamenca luta interior que se alojou no ouvido atento. O bater dos teus saltos, de noite. Ora próximos. Ora distantes. Tão presentes. Como uma sombra pairando. Ocupando os espaços.

O teu andar, a estilhaçar os olhares mais íntimos. A afasta-los a todos. Na distância felina que não se deixar domar. Todos. Menos o meu. Quando te olho vejo-te por inteiro. Sem máscaras. Sem gôndolas. Nítida, nas águas que sempre te trazem próxima. Perto. Perto demais. Transparente como este gin-tónico mais forte que o costume. 

Suave mistério, o que nos liga. Guardo-te no reflexo dos espelhos. Nos venezianos, que são os mais charmosos para te guardar.

Edmond Dantes, 25 anos, Florença, 2:00 PM | Autoria de Dry-Martini

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Percorro-te no pensamento

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Percorro a lentidão do teu corpo com o pensamento.
Um veleiro, ondulando nas tuas curvas
deixando o rasto lânguido dos lábios à deriva
Descendo húmidos, vestidos de sal, ancorados em ti

Percorro a lentidão do teu corpo com o pensamento.
Guiado pelos sinais da pele, que guardei como estrelas
Rosa-dos-ventos das minhas mãos nesta escuridão
E no entanto vejo-te tão nítida no pensamento

Percorro a lentidão do teu corpo com o pensamento.
Passo a passo. Paragem a paragem. Num ritual minucioso
Diluindo-me nos teus gemidos porosos
Absorvendo cada estremecer do teu prazer

Percorro a lentidão do teu corpo com o pensamento.
E quando nos revirmos não precisarei de olhos
Mostrar-te-ei todos esses caminhos
Que tenho guardados para ti

O gelo do gin-tónico estalou e houve quem dissesse ter ouvido um ligeiro içar de vela e um levantar de brisa quente, mais forte, vinda do Sul.

Kafka Tamura, 42 anos, Sid-Bou-Said, 2:00 PM | Autoria de Dry-Martini

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Acontece

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– Sobe – ordenou o senador Spiralgold ao seu piloto privativo.
O helicóptero zumbiu e tomou altura, oscilando levemente.
– Acelera – disse apressado o senador para o piloto atento.
O piloto carregou no botão. O fundo abriu-se e o senador Spiralgold esborrachou-se no solo, com eficácia.
– Coisas que acontecem – comentou para o piloto o espião moscovita disfarçado em garrafa de gin.

Mário-Henrrique Leiria, 1973, Lisboa

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Vivemos algures, tantas vezes

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O tempo é um assassino
A memória uma prisão
Vivemos algures entre os dois
Pendendo. Balançando.
Como uma folhagem ao vento.
Ondulando. Numa espécie de maré.
Cobertos por um manto sempre escasso.
Que se tapa a cabeça destapa os pés

Vivemos algures entre espadas e paredes
Lâminas gastas, pelo tempo, ou demasiado afiadas
Superfícies de seda ou texturas
Entre torpores e sorrisos
Mágoas e vontades

Vivemos tantas vezes
deixando nas mãos do tempo
O fino garrote do silêncio
Cortante. Implacável.
Estrangulando aos poucos o calor
deixando-o esvair-se, à morte

Desculpa, mas não sou capaz
Gostava de ser. Acredita
Permito-me sempre a uma conversa,
a um abraço, a um último olhar
a um quadro colocado nalguma parede interior
Por mais pequeno. Por mais insignificante.
Só assim me faz sentido. Só assim parto em paz.
Em paz comigo. Em paz com os outros.

Foi nesse preciso momento que a garrafa de gin pegou no telefone e ligou

 

David Crocket, 37 anos, Madrid, 8:30 AM | Autoria de Dry-Martini

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Fénix

renascer

Acordara absurda. De um ridículo insuportável, que quase se via reflectido na garrafa de gin abandonada junto aos copos soltos, vazios.
Oferecera-lhe o avesso de si. O calor da alma. Sonhos e memórias entrelaçados. Oferecera-lhe as águas mais puras que jamais lhe correriam até às mãos. Despidas de tudo. Prontas à descoberta.
A sua nudez feria a luz. Quase assustava. Era algo calmo e sobrenatural. Simultaneamente. Que tudo estremecia. Que vergava o espaço numa paz sublime.
Naquela manhã a cama vazia sussurrava o branco do lençol. Sem vincos. Sem o teu cheiro. Ampliando-o ao limite do vazio. Perdera-te, sabia-o. Mas contigo perdia-me também para sempre. Esvaziava algo. Sem retorno. Sem salvamento. Um sopro. Um vento quente do Suez. Sentia-me profundamente magoada. Ferida. Não de morte, pois era forte, mas sabia que nunca mais seria a mesma.
A vida continua. Sempre contiua. Viveria intensamente morrendo um pouco cada dia. Descobrindo outros caminhos para morrer. Assim viveria. Assim morreria. Assim renasceria.  

Ana Karenina, 21 anos, Praga, 8:00 AM  

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Fronteira

dilui

Pousou o copo de gin tónico e olhou a linha ténue onde o horizonte se mistura com o mar. Respirou pausadamente, de uma forma mais funda, como para apagar um incêndio que pensara extinto. Mas que teimava em reacender quando menos esperava. Era assim há algum tempo. O tempo de nem já ligar ao tempo.

Bebeu um último trago e saiu. Deixando para traz uma folha de papel amarrotada, que o vento parecia querer desenrolar. Revela-la ao mundo. Ao mar. Que parecia também crescer em curiosidade.

Uma carta que apesar da vontade não conseguira enviar. Do copo de gin deslizaram então algumas gotas que, absorvendo o papel, se apoderam das suas palavras deixadas. Por vezes as melhores. Guardando-as, quem sabe, para um dia chegarem ao seu destino. Rezava assim:

A nossa fronteira é a pele

De onde não podes sair.

Onde não posso entrar.

E no entanto vivemos misturados.

No interior do beijo que ainda perdura.

No fundo deste mar de sentidos.

Onde sempre nasce esta sede estranha

Que nos tem. Que nos dilui.

Daniel Sempere, 38 anos, Patagónia, 19:00 PM | Autoria de Dry-Martini

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