Memória

Ainda me lembro como se fosse hoje da passagem de ano de 1999 para 2000. O mundo ia acabar. Tínhamos champagnhe, mas brindámos com Gin. Fizemos tantos brindes quantas doses aquela garrafa permitiu. O momento parecia que ia durar para sempre, as promessas extasiadas também. Ficámos por ali, acabámos, mas o mundo continuou. Hoje, o mundo está a acabar aos poucos e nós continuamos a brindar, à vida, às promessas e aos encontros e desencontros.

Rahel, Kerala, 20 anos, 02h00, Autoria de Túlipa

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Para sempre

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Numa ansiedade adolescente, saí de casa uma hora mais cedo do que o previsto. Tinha passado longos momentos num ritual de preparação, qual noiva casta e donzela. Percorri lentamente os poucos quilómetros que nos separavam, a rever mentalmente a tua imagem, as tuas palavras, a tua voz.
Cheguei e fiquei à espera. Rectifiquei várias vezes a melena no retrovisor. “Achas-me bonita?”
Quis desistir, ir embora, ficar sem saber como seria… Mas esperei.
À hora marcada, ligaste a dizer que tinhas chegado. Estavas à minha espera. O coração deu um salto. Vesti a voz mais calma que fui capaz: “também cheguei agora mesmo”.
Subi as escadas e lá estavas tu, copo de gin na mão, à minha espera. Encostado, ocupado, distraído… ou talvez não. “Gostaste de me ver?”
O mundo devia ser sempre assim, perfeito. Como o mar, do lado de fora da janela, a enrolar-se na areia; como a lua, muito cheia de amor, no céu, a namorar as estrelas; como o nosso olhar cúmplice mergulhado em ternura. Comunhão total.
Quando pousaste a tua mão em cima da minha, percebi finalmente que o mundo podia acabar ali. “Quero ficar contigo para sempre”.
E ficaste.
Ficaste comigo.
Sempre.
Para sempre é que demora mais um bocadinho.

Autoria de Perfeito Estranho

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Evaporou

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Podia ter sido perfeito. Estou em crer que podia ter sido. Podia ter sido perfeito, se existisses. Pois se calhar foste uma mera aparição. Uma alucinação que me embeveceu, de tão perfeita. Ou, se calhar, exististe mesmo, e fui eu que me deixei esquecer. Fui eu que me abandonei de tudo. O mais certo é, ainda talvez, ter sido tão perfeito que se tornou insuportável. Insuportável, para ambos, de tão perfeito.

Guardei-te tempo demais. Guardei-me, também, tempo demais. Tanto tempo, que me perdi do tempo. Que me cansei do tempo que falta. Que me esqueci. Um esquecimento branco, que tudo levou com a tua passagem.

Cansei-me e já nada espero. Já nada desejo. Nada. Ninguém. Nem mesmo a dádiva sublime da surpresa. Deixo-as morrer como peixes sem água, numa planície seca e gretada. Desprovido de forças para as fazer crescer. Para as alimentar e fazer crescer. Desprovido de vontade para acarinhar suas frágeis formas de vida.

Quem me quiser que me descubra. Que se esforce. Agora, talvez, nem já consiga. Já seja tarde. Agora que a tudo reneguei. Tudo e todos condenados à partida. Tudo a passar. Nada a ficar. Apenas as paredes cobertas de livros e esta garrafa de gin. Tudo o resto evaporou, algures no tempo.

Autoria de Dry-Martini

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Bottled

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Agarro na garrafa com a fúria que se prende nos gestos irreflectidos.
Agarro na garrafa sem sentido.
E sem sentido início aquilo que acho que preciso.
Bebo do seu gargalo sem reparar no que ela me diz.
Sabe a Gin. Sabe a Tónico. Mas recuso-me a olhar para o rótulo.
Tenho os olhos cheios das lágrimas que com força expulso do meu
interior. Vou bebendo sofregamente de uma garrafa ao mesmo tempo que
tento secar o meu interior. A ironia dos momentos de dor. As
contradições de uma alma ferida!
Dou uma gargalhada que acorda os vizinhos (ou que desejo que acorde!
Afinal como podem eles dormir quando eu me encontro nesta dor
incomensurável, neste sofrimento sem voz, nesta loucura atroz? Como se
atrevem sequer em pensar em adormecer?).
Contradições de uma alma ferida? Alma? Aos anos que penso na alma como
se de uma asa de um pássaro se tratasse. Invariavelmente encontra-se
sempre ferida. Que raio de alma é esta então que não voa? Que não sara?
Que não consegue aproveitar as coisas boas da vida?
Entrego-me à garrafa que nunca largou a minha mão e entrego-me de corpo
e asa ferida, entrego-me sem medida, entrego-me sem contenção.
Tento chegar ao fim da garrafa como se isso me trouxesse como recompensa
alguma forma de compensação. Como se me fosse devolver um novo coração.
Como se fizesse sentido sequer.
Entrego-me à garrafa com o mesmo prazer que em tempos entreguei-me a
outros corpos. Com a mesma paixão. Com a mesma ilusão.
As lágrimas escorreram-me pelo rosto, desceram pelo meu pescoço e delas
perdi o rumo.
Os olhos já secos olham finalmente para a garrafa.
Lêem o rótulo.
Vou com uma asa adormecida deitar-me.
Atiro-me sobre o colchão e peço aos vizinhos perdão.
Balbucio devagarinho
que se pensarem nas contradições de uma alma ferida
que me deixem dormir e que riam baixinho.

Antonina Zabinsky, Varsóvia, 39 anos, 03h18, Autoria de Sandrine

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Semáforo

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Corro a cidade sem saber se é a ti que procuro ou se é de ti que
fujo… tal é a confusão que as voltas me fazem, tal é a repetição dos
prédios, dos lugares. Lugares comuns porque repetiram-se vezes demais
nos meus olhos e já não deixam lugar para a imaginação.
Corro a cidade com a mesma determinação com que corri do campo, com
que fugi das árvores e dos silêncios, dos verdes e dos tons
acastanhados. A mesma determinação que agora me embacia os sentidos,
os mesmos silêncios que me deixam saudades dos verdes, os mesmos tons
acastanhados que me deixam saudades do indeterminado, da ausência dos
semáforos que me gritam aos olhos que devo andar, que devo parar.
Corro a cidade e trago no nariz os mil cheiros que me inundam no
caminho, trago os carros e os seus escapes, trago as casas e os seus
jantares, trago as pessoas e todas as suas vidas presas no nariz.
Corro a cidade e trago na boca os sabores das lojas, o sabor dos
placards, o sabor dos copos que me acompanharam na vida, dos martinis
e dos gins tónicos, dos vinhos bebidos sem racismos e sem distinções.
Corro a cidade com a mesma determinação de quem corre a maratona… à
espera de ver a fita ao fim da corrida.
À espera que alguém me diga que não faz mal parar!

Fátima, 35 anos, Açores, 23h50, Autoria de Sandrine

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Metrónomo insuportável

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Entrou pela porta numa lentidão pesada. Fechou-a à chave, com duas voltas firmes. Deixando-a, presa na fechadura, a baloiçar o tempo como um metrónomo a desfalecer no silêncio aprisionado.

Desapertou a gravata de seda. Insuportavelmente azul. Abriu o botão da camisa. Insuportavelmente branca. Tirou os botões de punho. Insuportavelmente discretos. Tirou os sapatos sem se baixar. Insuportavelmente bem engraxados. Deixou cair o casaco num ténue movimento de ombros. Deslizando para o chão. Insuportavelmente escuro. Tirou todas as peças. Uma a uma. Com uma lentidão firme. Insuportavelmente. Até estar a sós com o seu corpo. Peças espalhadas por todo o caminho. Estranho, naquela lentidão quase imóvel de sombra. Insuportavelmente sua.

Parou apenas junto da banheira. Enorme. Com água quente. Muito quente. Correndo. Correndo. Insuportavelmente insuficiente. Deitou-se, por lá. Finalmente. Imóvel de tudo. Água a escaldar. Gin-tónico gelado. Ali ficou, num contraste, até a luz lhe desfalecer também. Num escurecer que entrava na água como tinta derramada. Diluindo tudo em redor num escuro inquieto. Iluminado pela janela enorme. Sentindo-se no quente vapor a levitar-lhe da pele.

Apetecia-lhe ficar ali para sempre. Apetecia-lhe apenas ficar. Desprover-se de acção. De curiosidade. De sangue e de corpo. De tudo. À espera, talvez, que alguém o quisesse descobrir. Alguém que sentisse verdadeiramente a sua presença. A sua falta. O seu calor. Alguém que lhe tivesse essa curiosidade insuportável. De tão necessária como uma fome. De tão lenta. De encontrar sempre tempo, mesmo onde as chaves pararam de balouçar. E o metrónomo parou. No silêncio escuro que se fez. Na ausência de tudo e todos. Insuportável.

David Martín. Barcelona, 27 anos, 18h30 PM | Autoria de Dry-Martini

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O peso da tua sombra

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O peso da tua sombra, ao de leve, no meu corpo. Como uma nuvem escura, trazida por um vento do sul. Pronta a diluir-se em chuva sobre mim. Adiando esse toque. Esse cair. Apenas pairando. Apagando a luz. Tacteando o peito despido com mãos frias. Lentas. Segredando um pó de vidro perigoso. Magnético aos ouvidos. Cor de lua.

 

O peso da tua sombra, ao de leve, no meu corpo. Algures, sem te ver mas sentindo-te tanto. A tua presença esguia percorrendo-me num véu invisível. Despertando a pele. Uma sombra espessa no que guarda, encostando-se a medo. Inquieta de não poder ficar.. Uma sombra escura como os teus olhos vendados nos meus.

 

Uma sombra de passagem. Não se querendo fazer notar

Não que a tivesse visto, é certo, mas foi a garrafa de gin que me confirmou.

 

 Franz, 30 anos, Budapeste, 3h17 AM | Autoria de Dry-Martini

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